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Alfabetização: placas novas para o hortifrúti do bairro

Com um projeto simples e criativo, a sala inteira aprendeu a ler e escrever

por:
BV
Beatriz Vichessi
O projeto elaborado por Elisangela fez a criançada refletir sobre a escrita e a leitura. Manuela Novais O projeto elaborado por Elisangela fez a criançada refletir sobre a escrita e a leitura O projeto elaborado por Elisangela fez a criançada refletir sobre a escrita e a leitura. Manuela Novais O projeto elaborado por Elisangela fez a criançada refletir sobre a escrita e a leitura Para fazer as placas, todos escreveram e revisaram muitas vezes até obter a versão final. Manuela Novais Para fazer as placas, todos escreveram e revisaram muitas vezes até obter a versão final Para fazer as placas, todos escreveram e revisaram muitas vezes até obter a versão final. Manuela Novais Para fazer as placas, todos escreveram e revisaram muitas vezes até obter a versão final Cada um escreveu como pôde o nome dos produtos, mesmo tendo as placas à disposição. Manuela Novais Cada um escreveu como pôde o nome dos produtos, mesmo tendo as placas à disposição Nas frases elaboradas pelos alunos, estavam o nome do produto e os dados pesquisados. Manuela Novais Nas frases elaboradas pelos alunos, estavam o nome do produto e os dados pesquisados Analisando um registro sem segmentação, eles discutiram os espaços entre as palavras. Manuela Novais Analisando um registro sem segmentação, eles discutiram os espaços entre as palavras No caso das escritas alfabéticas, algumas crianças pensaram a respeito da ortografia. Manuela Novais No caso das escritas alfabéticas, algumas crianças pensaram a respeito da ortografia
Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10

Conquistar a escrita convencional não é uma coisa fácil para as crianças. Requer pôr em jogo saberes, testar possibilidades, confrontar hipóteses, recorrer a modelos e rever escolhas. A tarefa do alfabetizador talvez seja tão complexa quanto a delas. Mais que desafios didáticos, ele precisa garantir que ler e escrever tenha na escola o mesmo sentido que na sociedade. Para isso, necessita planejar atividades que possuam, ao mesmo tempo, duas características: função comunicativa clara e foco na aquisição do sistema, dando sentido ao objeto de ensino para os estudantes, segundo a pesquisadora argentina Delia Lerner em Ler e Escrever na Escola: O Real, o Possível e o Necessário (128 págs., Ed. Penso, tel. 0800-703-3444, 46 reais).

Essas preocupações nortearam o projeto de Elisangela Carolina Luciano, professora do 1º ano da EMEF Adirce Cenedeze Caveanha, em Mogi Guaçu, a 164 quilômetros de São Paulo. Ela orientou a elaboração de placas para o hortifrúti do bairro. O objetivo era fazer todos avançarem na escrita. No início do ano, apenas três das 23 crianças estavam alfabéticas. No fim do trabalho, todas progrediram, sem exceção. "Ao levar os estudantes a pensar sobre a grafia das palavras e se preocupar em escrever textos que teriam de ser compreendidos por leitores reais, Elisangela fez com que as reflexões deles ganhassem sentido. Não se tratava somente de escrever para a professora ler", explica Beatriz Gouveia, coordenadora de projetos do Instituto Avisa Lá e selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.

Paula Stella, coordenadora pedagógica da ONG Laboratório de Educação e professora da pós-graduação em Alfabetização da Escola da Vila, em São Paulo, destaca que, embora simples, o projeto desenvolvido pela educadora é muito sofisticado. "Parece óbvio pensar que ler e escrever servem para diversas coisas. No entanto, muitos professores ficam sem saber como mostrar isso às crianças de modo interessante e realmente significativo. Elisangela conseguiu levar a escrita e a leitura para fora da escola em prol da aprendizagem dos conteúdos."

Escrever com ajuda dos colegas

Antes de começar a elaboração das placas, Elisangela conversou com a criançada sobre a necessidade de os pais autorizarem cada um a visitar o hortifrúti. A turma se organizou para produzir um documento que deveria ser preenchido e assinado por eles. Primeiro, a educadora disponibilizou modelos para que todos se familiarizassem com o gênero. Depois, fazendo as vezes de escriba, redigiu o texto ditado pelos alunos que, por sua vez, acompanharam a digitação graças ao uso do DataShow, que projetava a tela do computador em uma das paredes da sala. Desse modo, a revisão coletiva também pôde ser realizada. "Fizemos uma produção oral com destino escrito. O texto foi aprimorado aos poucos. Alguns alunos notaram a presença de palavras repetidas, que tinham de ser eliminadas", conta.

Vencida a etapa das autorizações, todos foram visitar o estabelecimento comercial. Munidos de prancheta, papel, lápis e borracha, tinham a missão de listar os alimentos à venda. Elisangela não direcionou o jeito de fazer: alguns fizeram cópia das placas disponíveis nas bancas, outros optaram por escrever por conta própria, colocando em cena suas hipóteses.

De volta à escola, Elisangela apresentou fotos de materiais usados no comércio para que fossem definidos os dados que constariam nos produzidos por eles. Ficou combinado que as placas teriam a foto e o nome do alimento, informações nutricionais, a unidade de medida (como quilo ou dúzia), espaço para o preço e o nome dos autores. "Também elaboramos, em grupo, a lista dos alimentos com base nas anotações feitas no hortifrúti e orientei uma pesquisa sobre as propriedades deles em textos informativos. Com os resultados em mãos, criamos as frases oralmente, todos juntos", diz Elisangela.

Para seguir adiante, em várias aulas, os estudantes, organizados em pares de acordo com as hipóteses de escrita, ganharam a incumbência de registrar as frases, recorrendo ao que já sabiam e conversando com o colega (leia na galeria algumas produções). Marisa Garcia, supervisora acadêmica do Programa Ler e Escrever/Bolsa Alfabetização, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, diz que essa etapa requer muito planejamento. "Além de pensar em como formar duplas produtivas, o educador tem de levar em conta se vai ou não determinar o aluno que ficará com o lápis na mão, responsável por registrar o que o colega disser, e se preparar para as intervenções que terá de fazer enquanto as crianças trabalham."

Assim que todos terminaram de escrever, a educadora escolheu algumas produções e organizou uma revisão coletiva acompanhada pela classe toda com o DataShow. "A dupla escolhida digitava a frase no computador que levei para a sala de aula e eu perguntava se alguém queria fazer alguma modificação. A classe debatia e fazia sugestões para melhorar o registro. Por exemplo, dar espaço entre as palavras", diz Elisangela. Caso alguns problemas permanecessem, ela chamava a atenção para a marcação em vermelho produzida pelo corretor ortográfico e a meninada refletia e fazia as mudanças. Marisa destaca a relevância de garantir o processo de revisão: "Alguns educadores se restringem a atividades de escrita imaginando que se as crianças ainda não escrevem convencionalmente não faz sentido revisar. Ao contrário! É revendo o material e discutindo sobre ele que elas avançam".

Após revisões sucessivas feitas por cada dupla no laboratório de informática, a versão final das placas começou a ser feita. "As crianças pesquisaram imagens para juntar à frase que explicava as propriedades nutricionais. Elas digitaram também o nome dos autores", explica Elisangela. O preço, item fundamental, não ficou de fora da conversa sobre a arte final. "A classe decidiu deixar um espaço para escrever os valores", conta a educadora. Depois de impresso, o material foi plastificado. Assim, os números poderiam ser escritos com pincel atômico e apagados com um pano embebido em álcool. Material pronto, a criançada voltou ao hortifrúti e entregou tudo nas mãos do proprietário.

Além das placas, outros textos e livros

Em paralelo ao projeto, Elisangela garantiu uma rotina de produção de textos. Entre outras atividades, os alunos se reuniam de segunda à quinta- -feira para escolher a brincadeira que queriam para a sexta-feira e tinham de explicar tudo por escrito. A leitura de textos literários também foi contemplada. Ora ela lia em voz alta para a classe, ora um estudante levava um título para casa, analisava e depois apresentava a obra para os colegas e fazia a leitura em voz alta. "Elisangela uniu o projeto a atividades permanentes que ajudaram a turma a aprender mais", diz Beatriz.

1 Escrever uma autorização Apresente o projeto de mudança da comunicação visual do hortifrúti (ou outro estabelecimento) do bairro. Os alunos devem elaborar uma autorização para os pais assinarem liberando a ida deles ao local. A turma dita para você, que é o escriba.

2 Listar os alimentos Durante a visita, oriente as crianças a escrever o nome das frutas, dos legumes e das verduras à venda.

3 Pesquisar as qualidades De volta à escola, discuta os registros e, coletivamente, organize uma lista com os alimentos que terão novas placas. Oriente a pesquisa sobre as propriedades nutricionais de cada um deles. Reúna a turma para criar, oralmente, as frases com base no material obtido.

4 Escrever em duplas Organize os alunos em pares produtivos, considerando as hipóteses de escrita. Eles deverão escrever as frases criadas anteriormente. Feito isso, socialize as produções e peça que todos colaborem para melhorá-las.

5 Montar as placas Cada dupla deve digitar o nome do alimento, a frase revisada e o nome dos autores do trabalho. Impresso o material, organize mais uma visita ao hortifrúti para a entrega das placas.

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